João Saconi
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João Saconi
On quarta-feira, 14 de maio de 2014

“Procure
Saber”. Esse é o nome da organização de artistas brasileiros que contesta a
publicação de obras biográficas não autorizadas. A incoerência ideológica do
grupo reside primeiramente em seu nome: a censura de obras jornalísticas como
as biografias inibe a procura das pessoas pela realidade, bem imprescindível
para a sociedade em que se insere o Brasil atual.
A
liberdade de expressão, sem existência de um órgão censor, garante a lisura das
obras criadas e publicadas sem influência das personalidades citadas. A
biografia tem compromisso com o jornalismo, tratando-se de uma obra fiel à
realidade e à objetividade, sem deixar margens ao subjetivo e ao ficcional,
como é o caso da literatura. Biografar é relatar o cerne da vida do biografado
sem esconder nenhum detalhe, seja ele competente à vida artística ou pessoal.
Alguém
que pleiteie o reconhecimento e o sucesso diante da mídia e do grande público
precisa compreender as limitações de sua intimidade. A notoriedade se inverte
proporcional ao direito à intimidade, e quanto mais sucesso faz um artista,
mais ele compromete sua vida particular em favor de sua imagem pública.
Esse
é o caso de ícones do país como Caetano Veloso e Chico Buarque, que, durante
algum tempo, lutaram contra a censura e tornaram-se símbolos da música com
caráter racional no país. Suas vidas devem sim ser de conhecimento público, uma
vez que suas obras influenciaram e moveram uma geração.
É
incoerente, mais do que o “Procure Saber”, que artistas de tamanha importância,
como os citados, esqueçam seu papel rebelde outrora e queiram implantar uma
censura velada baseada na falta de retorno financeiro que as biografias impõem,
com direito e propriedade, afinal, o biógrafo realiza o trabalho cansativo e
grandioso que a obra requer.
Autorizar
previamente biografias é imprimir nelas o selo de “irrealidade” e fantasia de
uma história que foi inventada para enganar seu leitor e fazê-lo acreditar numa
imagem comercial e nada verdadeira sobre o biografado que se torna autor de uma
história sobre si mesmo. Consiste, portanto, o “Procure Saber”, em uma afronta
à liberdade de expressão garantida constitucionalmente pela qual Caetano e
Chico tanto lutaram.
Terça, 29 de outubro de 2013.
