João Saconi
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Respeitável Público,
O Sede de Palavras apresenta:
CIRCO DE NÓS DOIS
Eu cheguei a pintar a cara,
Até o nariz de vermelho.
Cheguei a usar uma cartola,
E tirei dela um coelho.
Também fiz equilibrismo,
Fui um louco trapezista.
Quase pulei de um abismo,
Do nosso amor fui o artista.
Virei uma cambalhota,
Algo tipo pirueta,
Fiz parte da patota,
Tudo sem fazer careta.
Montei nosso picadeiro,
Interpretei o seu Romeu.
E passei o tempo inteiro
Provando que era seu.
Eu dancei no seu compasso,
Com a felicidade pra depois.
Acabei sendo o seu palhaço,
Para o circo de nós dois.
Quarta, 24 de outubro de 2012.

Homem de Lata
Ei! Ei! Homem de Lata,
Seu corpo ainda está enferrujado,
E sei que a solidão ainda te mata,
Enquanto seu coração está dilacerado.
Vim até Oz lhe pedir um favor.
Olhe em meus olhos, se puder,
Pense no que tenho para propor,
Minha vida mudará se você quiser.
Eu vim de longe, da verdade,
Certo de que lhe encontraria.
Querendo sumir da realidade,
Vim para a terra da fantasia.
Você não sente nada,
E nada é o que quero sentir.
Eu te imploro, Homem de Nada,
Ajude-me a fugir.
Troco contigo o meu coração,
Dê-me, por favor, todo o vazio,
Revista-me com sua pele de latão,
Quero sentir-me ainda mais frio.
Deixe-me ocupar o seu lugar,
Quero ficar aí, parado na tempestade,
Até meu corpo inteiro enferrujar,
Enquanto escorre essa infelicidade.
Deixe-me ser você, Homem de Lata.
Dê me uma fiel prova de amizade,
Faça-me cinza antes que a tristeza bata,
Permita-me escapar da realidade.
Quarta, 7 de novembro de 2012.
Licença Poética
Trocar as palavras de ordem posso,
Com a mente de quem me lê, brincar também.
Sou capaz de criar um tesouro totalmente nosso,
Um reino de palavras que da total liberdade provém.
Não importa como, se de cabeça para baixo,
Ou debaixo para a cabeça. Se é minha propriedade,
Escrevo-a como quero. Brinco, mudo e encaixo,
Apresento-lhe licença poética, vossa Majestade.
Dobro, desdobro, complico de todas as maneiras que quiser,
A poesia é minha e as rimas também! Sou poeta com licença,
Quero passar com as minhas palavras, salve-se quem puder!
Trocar as palavras de ordem posso,
Com a mente de quem me lê, brincar também.
Sou capaz de criar um tesouro totalmente nosso,
Um reino de palavras que da total liberdade provém.
Não importa como, se de cabeça para baixo,
Ou debaixo para a cabeça. Se é minha propriedade,
Escrevo-a como quero. Brinco, mudo e encaixo,
Apresento-lhe licença poética, vossa Majestade.
Dobro, desdobro, complico de todas as maneiras que quiser,
A poesia é minha e as rimas também! Sou poeta com licença,
Quero passar com as minhas palavras, salve-se quem puder!
Sexta, 18 de maio de 2012.
E enquanto eu te admirava, você me pediu para admirar a paisagem. Sei que gosto de você porque recusei. Naquele momento, nem o pôr do sol, nem os pássaros ou as árvores, nem o céu rosa e nem a janela me chamavam atenção. Sei que gosto de você porque meus olhos encontraram algo mais bonito do que aquela paisagem cor de rosa. Seus olhos cor de você.
Sábado, 7 de abril de 2013.
com um verso dourado escrito por mim ao lado do meu nome inscrito no assento.
Queria saber se minha escrita será referência.
Talvez os Doutores em Literatura algum dia leiam minhas poesias para seus alunos
e façam comentários sobre como eu era um bom autor. Ou um péssimo.
E talvez alguém, no auge do sofrimento ou da felicidade,
escolha uma estrofe da minha obra para ler e sorrir e ler e chorar.
Quem sabe um rapaz apaixonado declame minhas linhas
em serenata e eternize-as no coração de sua amada.
Ou então que um potencial suicida desista da morte e abrace a vida
ao ler um livro de auto-ajuda que nem pretendo escrever.
Ah, os livros!
Quais posições eles ocuparão no ranking do The New York Times?
Será que os atendentes das livrarias me indicarão para seus clientes?
Quem é que vai me ter no criado-mudo e na cabeceira?
Será que irão me ler no banheiro? Nas noites de insônia?
Ou dormirão em cima de minhas páginas?
Num futuro em que não mais viverei, talvez apreciem
minha obra como sendo a obra de um grande autor.
Ou talvez nunca cheguem a conhecer obra nenhuma.
Mas eu me pergunto sobre o agora...
Hoje, eu só queria alguém pra me ler do prefácio ao epílogo.
Quinta, 25 de abril de 2013.

Poesia em um segundo
Rodando vai o verso,
Com o ônibus na avenida,
Percorrendo o universo
No ritmo da corrida.
E escrevendo na rua,
Pinta palavras na travessa,
Escreve também na lua,
A poesia vence a pressa.
No sobe e desce da lotação,
Meus versos atraem olhares,
Prendendo a sua atenção.
Neste lugar onde passa o mundo,
Pare, leia, aprecie e ame poesia:
A arte que contagia em um segundo.
Escrito para o concurso "Cultura em Movimento"
que tinha como objetivo encontrar obras para serem
expostas nos transportes coletivos de Anápolis.
Mesmo não premiado, o concurso me rendeu uma bela obra.
Quinta, 10 de janeiro de 2013.

Eu te vi ali sem cor,
Lembrei do nosso amor.
Eu escrevi mais uma,
A última poesia de dor.
Quando eu te coloria
Quando era eu quem te coloria,
Você costumava ser mais feliz.
Olhando nos meus olhos sorria,
Um beijo me dava na ponta do nariz.
Suas cores tinham lindo matiz,
Seu coração no olhar reluzia,
E o amor nele criava raiz:
Um retrato de alegria.
Quando era eu quem te dava cor,
Você era obra de arte muito bela,
Que maculada foi com o rancor.
Quando você era minha tela,
E eu era seu fiel pintor,
Você era linda aquarela.
Segunda, 24 de junho de 2013.

Por algum tempo, eu quis ficar ali escondido. Como o livro distante da prateleira dos best-sellers, pouco folheado e às vezes pego por engano por algum leitor desavisado. Lida a contracapa, logo devolvido.
Como o passageiro do ônibus que quer chegar em casa e acaba mudando de estado, sem querer, depois de dormir mais do que devia. Ninguém viu. Ninguém avisou. Ninguém fez questão de acordar.
Como o panfleto daquela nova loja que inaugurou no shopping e você nem se deu ao trabalho de ler antes de jogar na rua para que o vento lesse e também não se importasse.
Como aquele filme no cinema, na última sala, na última sessão reservada para ninguém. Esquecido pela crítica! Ora, como poderiam criticá-lo se nem mesmo assistiram-no? Nem mesmo se os ingressos da outra sessão estiverem esgotados... É melhor voltar outro dia.
Como a regra que, de tanto transgredirem foi retirada da Gramática: apenas velha idéia descartada do vocabulário poético inadeqüado e antiqüíssimo.
Como o programa de TV que obriga as pessoas a mudarem de canal quando começa e voltarem ali somente após o seu fim.
Como o copo de bebida gelada que virou quente com o passar da noite e ali ficou assistindo a festa acontecer.
Como os CDs que ficaram tão esquecidos depois da chegada do MP3 que nem mesmo os fãs daquelas gravações e os colecionadores quiseram comprá-los.
Como aquela foto da máquina Kodak que alguém tirou no começo da década e não quis revelar porque havia outras mais bonitas perto daquela.
Como a estrela além das constelações que foi ofuscada pela luz dos postes e dos carros na cidade em que você mora.
Como o dia que, de tão monótono, as pessoas esqueceram e fizeram questão de fingir que não existiu. Viveram o próximo.
Como as memórias ruins que as pessoas tanto desejam apagar.
Como a música que nunca foi pedida na rádio, nem por engano.
Como aquela moça que passou e mesmo bonita, ninguém reparou.
Como a palavra que ninguém quis saber o que significava.
Como aquela antologia nunca publicada.
Como a poesia que nunca foi escrita.
O autor que nunca escreveu.
O poeta que nunca foi escrito.
Quinta, 24 de outubro de 2013.
Texto escrito para A Decadência do Anjo.

“Procure
Saber”. Esse é o nome da organização de artistas brasileiros que contesta a
publicação de obras biográficas não autorizadas. A incoerência ideológica do
grupo reside primeiramente em seu nome: a censura de obras jornalísticas como
as biografias inibe a procura das pessoas pela realidade, bem imprescindível
para a sociedade em que se insere o Brasil atual.
A
liberdade de expressão, sem existência de um órgão censor, garante a lisura das
obras criadas e publicadas sem influência das personalidades citadas. A
biografia tem compromisso com o jornalismo, tratando-se de uma obra fiel à
realidade e à objetividade, sem deixar margens ao subjetivo e ao ficcional,
como é o caso da literatura. Biografar é relatar o cerne da vida do biografado
sem esconder nenhum detalhe, seja ele competente à vida artística ou pessoal.
Alguém
que pleiteie o reconhecimento e o sucesso diante da mídia e do grande público
precisa compreender as limitações de sua intimidade. A notoriedade se inverte
proporcional ao direito à intimidade, e quanto mais sucesso faz um artista,
mais ele compromete sua vida particular em favor de sua imagem pública.
Esse
é o caso de ícones do país como Caetano Veloso e Chico Buarque, que, durante
algum tempo, lutaram contra a censura e tornaram-se símbolos da música com
caráter racional no país. Suas vidas devem sim ser de conhecimento público, uma
vez que suas obras influenciaram e moveram uma geração.
É
incoerente, mais do que o “Procure Saber”, que artistas de tamanha importância,
como os citados, esqueçam seu papel rebelde outrora e queiram implantar uma
censura velada baseada na falta de retorno financeiro que as biografias impõem,
com direito e propriedade, afinal, o biógrafo realiza o trabalho cansativo e
grandioso que a obra requer.
Autorizar
previamente biografias é imprimir nelas o selo de “irrealidade” e fantasia de
uma história que foi inventada para enganar seu leitor e fazê-lo acreditar numa
imagem comercial e nada verdadeira sobre o biografado que se torna autor de uma
história sobre si mesmo. Consiste, portanto, o “Procure Saber”, em uma afronta
à liberdade de expressão garantida constitucionalmente pela qual Caetano e
Chico tanto lutaram.
Terça, 29 de outubro de 2013.
